Para nossas Crianças: tempo sem direção

Para nossas Crianças: tempo sem direção

Mês das crianças – ‘nossos’ pequenos seres, a quem nos dedicamos com todo nosso amor e com todos os nossos recursos.

Pensamos muito sobre o que propor para comemorar uma data tão especial: uma gincana, uma corrida, um dia com atividades voltadas para eles… E, com isso, nos demos conta da importância e da real necessidade de estabelecermos momentos sem nada a fazer.

Causa estranhamento, e talvez até desconforto, propor algo assim, não definido, delimitado, com foco, sem resultado direto, mas precisamos rever a importância desses momentos.

É do vazio que, do nada, surge uma grande ideia, algo inovador, uma descoberta. Assim está registrado na nossa história. Einstein; Monet, Jung, Newton, Darwin, Chopin são grandes exemplos, grandes nomes da filosofia, da física, da psicologia, de todas as áreas do conhecimento. Grandes oportunidades surgiram depois desse vazio, desse não fazer, desse ‘movimento’ não direcionado e mais livre.

Passamos grande parte do tempo procurando uma atividade: o que fazer, onde levar, onde tem algo, o que escutar e o que ler, para as crianças e para nós.

Vou contar uma situação que vivi com meus filhos, que dizem muito desse movimento.

Levei eles no espaço da Celine Lorthiois – pedagogia profunda. Lá eles têm de 3 a 4 horas para fazer o que quiserem, com muitas possibilidades (jogos, argila, piscina, balanço). As crianças vão escolhendo e os profissionais vão acompanhando. Bom, meus filhos adoram ir. Sempre que consigo os levo. Fazia algum tempo que não íamos e eles me pediram: “Mamãe, me leva em Cotia, na Celine, faz tempo que não vamos, queremos ir”. Assim que pude entrei em contato com a Celine e marquei. Dois dias antes, como um sorriso no rosto e cheia de entusiasmo, anunciei a desejada novidade: “Meninos, vamos à oficina da Celine.”

Eles enlouqueceram: “Não quero. Por que precisamos ir? Pode ser outro dia?”. Pensei que eles não haviam entendido. Expliquei novamente, com calma, mas era um atropelo, eles argumentavam que não queriam e não conseguiam me ouvir. Até que meu filho mais velho disse: “Mamãe, nós só queremos ir lá, sem fazer nada, só fazer o que quisermos”.

Então, entendi. O problema foi a palavra OFICINA. Eles não queriam nada dirigido, queriam uma coisa livre, um espaço livre, sem propostas definidas, cada um no seu tempo e com seus desejos. Muito complexo tudo isso. Simples demais para nossos dias atuais.

Mas, pensem:

* Na televisão – mil informações, cores, propagandas, possibilidades;

* na internet (por meio dos jogos, redes sociais) – coisas para comprar, para querer, coisas para ser,  ou seja, muita informação;

* saindo à rua – várias lojas, pessoas, outdoors, sons, músicas.

Qual é o momento sem direção, livre para poder criar, ter ideias, construir?

Hoje saímos à rua e encontramos o vizinho, placas, luminosos, sons, todos oferecendo algo de fora para dentro. Houve uma época em que, ao sair de casa, você caminhava, não encontrava pessoas, não havia propagandas, cores, internet e, portanto, sobravam espaço vazio e tempo sem direção para vir algo de dentro, para surgir a cor, a música, a brincadeira, a ideia revolucionária e inovadora.

Não sabemos mais viver isso, aproveitar isso. Por isso recorremos a obras literárias que nos ensinam como não fazer nada, como sermos criativos, como olhar para dentro, como meditar, como ter foco. Isso se tornará desnecessário se retomarmos esses espaços vazios.

Não quero voltar no tempo, nem tenho a intenção de abolir a internet e seus benefícios, mas incluir e propor espaço vazio e sem direção em alguns momentos, para nós e nossas crianças, proporcionará crianças e famílias menos ansiosas e mais saudáveis. Ficaremos menos doentes e seremos seres mais criativos e felizes.

Sugiro vazios para serem preenchidos de encontros e de amor. Que tal? Diga qual a sua ideia, sua sugestão?

Acompanhe-nos pelo blog e redes sociais e veja muitas dicas importantes para o seu dia a dia. Estamos juntas para descomplicar o seu dia a dia, trazendo desenvolvimento saudável, diversão, disciplina e desmistificando a primeira infância.

Comments (2)

  1. Maria José de Jesus.
    13 de outubro de 2019 at 18:09 Responder

    Adorei tem sentido lógica….
    Para criar precisamos o silêncio a paz a concentração…e de repente algo surge como uma mágica.

  2. Lucia P. C. Valente
    19 de outubro de 2019 at 01:56 Responder

    Olá queridas Aline e Nicole, como tia de 8 sobrinhos e sempre os curti muito, hoje todos adultos, o que mais gostava de fazer, estando com eles, era deixar eles iniciarem as brincadeiras, estabeleciam as regras e eu entrava na brincadeira e perguntando os “por quê”, “para que”, “como”….. brincávamos bastante; entendíamos o que estávamos fazendo, dentro da lógica infantil e dentro dos sonhos deles… brincar livres, sem limites de entendimento…

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